2006/05/13

Preso por ter cão, preso por não ter

É do senso comum (odeio dizer “toda a gente sabe”, principalmente porque a maior parte das vezes eu não faço a mínima ideia e considero-me gente também) que, quando alguém cai em desgraça, todos (ou quase — não gosto de generalizar, mais uma vez), lhe caem em cima, pisando ainda mais e esforçando-se até à exaustão para descobrir podres atrás de podres, cavando um buraco cada vez maior onde o pobre coitado há-de ser enterrado e afastado para sempre dos prazeres da vida mundana. — E não foi só isso que ele fez, lembras-te daquele caso do…? Também esteve metido nisso, até às orelhas.
Às vezes, prova-se a inocência da pessoa em questão e, aí, todos se esquecem do que disseram, voltando a falar com a pessoa, desculpando-a e desculpando-se com o entusiasmo do momento:
— Sabes, é que em todo o lado se acreditava nisso, mas olha que eu sempre te defendi. Nunca, num só momento, duvidei da tua inocência. Só deixei de te falar porque desapareceste de repente. Pois sim, claro, é sempre assim.
Mas não é só quando se está em baixo que nos escarafuncham a vida, para criar um buraco onde possamos tropeçar e cair em seguida. Quando se está bem lá em cima, há sempre aquela gentinha que se pela por encontrar defeitos. E desatam a criticar tudo, a duvidar da seriedade, a inventar cunhas onde não as há, a procurar defeitos naquilo que apenas sai da linha que todos seguem e a acreditar em tudo o que aqueles que não tiveram a coragem de ser diferentes dizem sobre a pessoa em questão. E discutem o seu valor, o seu trabalho, as suas escolhas, o seu modo de estar e de viver em jantares, festas, encontros, reuniões, esquecendo-se de que, ao fazê-lo, a estão a colocar no centro do mundo. No pedestal onde todos gostariam de estar.
Umas, acabam por ser enredadas nessa teia de suposições e acabam por cair. Outras, as que trazem com eles uma estrelinha, vão balançando, mas não caem. Porque estão atentas como os outros não estão, porque sabem o que eles não sabem, porque têm a coragem de fazer e exigir que façam bem feito e porque têm, indubitavelmente, um brilho indelével.
Há pessoas assim, e essas, meus caros, continuarão vivas mesmo depois de enterradas sob as vossas toneladas de amargura.

5 comentários:

Manolo Heredia disse...

A qustão é de quem sabe e de quem não sabe jogar o jogo "O dilema do prisioneiro".

S. disse...

A questão é saber estar onde somos desejados e necessários, em vez de insistir em fazer a vida onde só nos desgastamos. As ilusões e expectativas alheias atiram-nos muitas vezes para um circo de feras que não tem nada a ver connosco. Se tivesse, não seriam feras. Seriam gatos amansados.

Sei que não fui muito explícita. Acho que o que queria dizer é que, por vezes tentamos fazer justiça onde as pessoas em redor não merecem. Tentar corrigir os outros é um dispêndio de energia que podia ser mais bem direccionado se conseguíssemos pensar fora da caixinha.
É como sair de casa quando já não se vive lá bem, ou ter coragem de mudar de emprego, de cidade, de país, quando o cenário já nos bloqueia a energia e nos faz sentir infelizes, errados ou insatisfeitos a maior parte do tempo, qundo passamos amis tempo a protegermo-nos do que desenvolvermo-nos.
Quem muda, muda sempre para melhor (mesmo que seja ajudado por um pontapé da vida), sobretudo, se estiver atento a si mesmo que àquilo que o faz sentir-se bem. Mas não digo que seja fácil.

Rosmaninho disse...

Tens toda a razão, S., e eu sou uma fervorosa adepta da mudança, não enquanto desistência mas como procura de um novo rumo. Quando já não vale a pena, não vale mesmo a pena. Só que há certas situações em que é muito difícil mudar. Quanto à segunda parte do texto, refere-se a um amigo meu, cuja história eu conheço de perto e cujo sucesso é constantemente posto em causa por tricas e tentativas de descrédito. Odeio que, quando por inveja, as pessoas se dêem ao trabalho de ir procurar o mínimo defeito em tudo o que ele faz. E odeio também que me digam que o defendo apenas porque sou amiga dele. Não compreendo uma amizade baseada em bajulações e favorzinhos, por isso eu nunca o faria.

BlahBlahBlah disse...

Há sempre situações e nunca é fácil mudar. Mas, a coragem de o fazer é normalmente recompensada.

S. disse...

É sim senhor!
Quem muda, muda sempre para melhor.