É do senso comum (odeio dizer “toda a gente sabe”, principalmente porque a maior parte das vezes eu não faço a mínima ideia e considero-me gente também) que, quando alguém cai em desgraça, todos (ou quase — não gosto de generalizar, mais uma vez), lhe caem em cima, pisando ainda mais e esforçando-se até à exaustão para descobrir podres atrás de podres, cavando um buraco cada vez maior onde o pobre coitado há-de ser enterrado e afastado para sempre dos prazeres da vida mundana. — E não foi só isso que ele fez, lembras-te daquele caso do…? Também esteve metido nisso, até às orelhas.
Às vezes, prova-se a inocência da pessoa em questão e, aí, todos se esquecem do que disseram, voltando a falar com a pessoa, desculpando-a e desculpando-se com o entusiasmo do momento:
— Sabes, é que em todo o lado se acreditava nisso, mas olha que eu sempre te defendi. Nunca, num só momento, duvidei da tua inocência. Só deixei de te falar porque desapareceste de repente. Pois sim, claro, é sempre assim.
Mas não é só quando se está em baixo que nos escarafuncham a vida, para criar um buraco onde possamos tropeçar e cair em seguida. Quando se está bem lá em cima, há sempre aquela gentinha que se pela por encontrar defeitos. E desatam a criticar tudo, a duvidar da seriedade, a inventar cunhas onde não as há, a procurar defeitos naquilo que apenas sai da linha que todos seguem e a acreditar em tudo o que aqueles que não tiveram a coragem de ser diferentes dizem sobre a pessoa em questão. E discutem o seu valor, o seu trabalho, as suas escolhas, o seu modo de estar e de viver em jantares, festas, encontros, reuniões, esquecendo-se de que, ao fazê-lo, a estão a colocar no centro do mundo. No pedestal onde todos gostariam de estar.
Umas, acabam por ser enredadas nessa teia de suposições e acabam por cair. Outras, as que trazem com eles uma estrelinha, vão balançando, mas não caem. Porque estão atentas como os outros não estão, porque sabem o que eles não sabem, porque têm a coragem de fazer e exigir que façam bem feito e porque têm, indubitavelmente, um brilho indelével.
Há pessoas assim, e essas, meus caros, continuarão vivas mesmo depois de enterradas sob as vossas toneladas de amargura.