2006/05/01

Second best

Há já algum tempo, talvez em prejuízo meu (nunca saberemos onde nos levariam as opções que rejeitámos em detrimento de outras), que decidi não querer menos que o melhor. E isto não tem que ver, em absoluto, com bens materiais, que nesses chegam-me aqueles que me oferecem um bom desempenho face ao custo. Tem que ver, sim, com aquilo que me satisfaz. E com o que vale verdadeiramente a pena.

Por exemplo, prefiro comer o meu doce preferido apenas uma ou duas vezes por ano, mas feito a preceito, com as calorias todas, a comer diariamente sobremesas feitas à pressa ou enganar-me com iogurtes plenos de criatividade. Prefiro fazer apenas 10 dias de praia, na minha praia preferida (mesmo que para isso precise de fazer 250km), a enfiar-me em filas de trânsito ao fim de semana apenas porque em Junho já temos que estar com o tom de pele que nos permite mostrar as pernas ao mundo. Em suma, prefiro pouco, mas muito, muito bom.

Alguém me disse, há dias, que dado o meu aspecto físico, não me posso dar ao luxo de ser muito exigente na escolha de um companheiro. As coisas são mesmo assim, os menos-que-perfeitos são rejeitados ou, quando muito, são a segunda, terceira, quarta escolha. E, como tal, devem sujeitar-se também a optar por alguém da mesma categoria.

Pois sim, até pode ser verdade para alguns, mas eu não vou nessa. Em primeiro lugar, as pessoas não se escolhem por catálogo, atraem-se ou não, conquistam-se, apaixonam-se. E quando existe a chamada química, e amor verdadeiro, fecham-se os olhos e nada mais é importante.

Vá, chamem-me romântica, naïve, sonhadora e condenem-me a ficar só para sempre. Eu não me importo. Garanto que não viverei um amor de compensação. Mil vezes uma paixão fugaz que uma vida de descontentamento.

4 a 0

Ainda não me habituei. Deve ser falta de hábito, ou coisa parecida. Talvez seja rejeição. A verdade é que ainda tenho que pensar para responder a idade que tenho. Cada vez que vou a escrevê-la, lá vêm o 3 e o 9, juntinhos. Não se largam, depois de terem passado um ano inteiro juntos. Há 5 dias atrás, separei-os, arrumei-os a cada um no seu lugar e substituí-os por outros, na ordem imediatamente a seguir. Mas eles insistem em fazer ruído sempre que penso nisso. Garantem-me que não é por mal, que daqui a uns dias se calam para sempre, mas não dizem quando. Eu até compreendo que não me queiram deixar, afinal eram eles que estavam comigo na altura em que decidi ser diferente. E em que consegui mudar algumas coisas, em que passei a acreditar que muitas coisas que dantes ignorava e rejeitava por medo e complexos são possíveis. Custa-me abandonar-vos, mas as coisas são mesmo assim. Estão arrumados, e desta é de vez. Perderam por 4 a 0.

2006/04/30

Blogueio

Estou blogueada. Preciso de parar para pensar, preciso de não escrever tudo o que me vem à cabeça. Preciso de temperar o que digo, mas não sei bem com quê. Ainda não descobri a receita, e não há livros que ensinem este tipo de culinária. Só posso ser eu, e ultimamente têm sido tentativas atrás de tentativas. Tudo para o lixo. Chego aqui, misturo umas palavras, mexo bem, cozinho e trago à mesa. No outro dia de manhã, acordo bem cedo a pensar no assunto, venho a correr para o teclado e provo mais uma vez. Para além de estar frio, não tem o sabor que queria que tivesse. E lá vai tudo para o lixo. Sem pensar duas vezes.

Hei-de voltar. Talvez já amanhã.

2006/04/27

Finalmente

Estou quase igual. Só não uso saias tão curtas nem sapatos brancos. Continuo a adorar trepar a rochas, mexer em água corrente, observar carreiros de formigas e fazer apenas o que me apetece. A nuvem de cabelo incontrolável continua cá. Mas já não fico bem nas fotografias.

...rinta!

Já tá! Não doeu nada. Sou uma respeitável senhora de Q·u·a·r·i·n·t·a anos. Não quarenta. quarinta, porque um número é apenas um número, e eu faço dele o que quiser.

2006/04/26

Qua...

...se. Está quase lá. Faltam uns minutos. Para ser precisa, umas quantas horas. Quase sete. Mas é só o que falta. Já me passou a ansiedade, aliás, não mudamos de um dia para o outro. Pelo menos nós, para nós. Mas como eu sempre digo, basta-nos decidir ser mais alguma coisa. E eu creio que sou. E gosto cada vez mais do que sou.

Ah pois é, houve uma revolução, não foi?

Parece que sim. Na minha família também. Partiu-se em dois. Os excessos cometidos pelos ardores da revolução levaram a que a minha família emigrasse. E foi muito doloroso, na altura, deixar de ter com quem passar o Natal, os aniversários, as férias...

De resto, e apesar de ter sido essencial e inevitável, nada mais significa para mim? Cravos? Não gosto, muito menos do cheiro. Liberdade? Será que alguém já percebeu onde começa e acaba? Respeito? Ficou pelo caminho. Tolerância? Deixem-me rir. Democracia? Talvez, mas sobretudo desigualdade.

Quanto a mim, os portugueses ainda não se libertaram do estigma do "lá fora é muito melhor" e, em vez de seguirem o exemplo, continuam a entronizar os outros em vez de deitarem mãos à obra. Muito se disse na altura da revolução, muito se continua a esperar... mas continuamos sentados, em contemplação.

Hoje, 25 de Abril, dei por mim a ir trabalhar sem remuneração, apenas porque uma estagiária a custo zero também lá estava, a tentar conquistar um contrato de seis meses. E porque naquela empresa nos agradecem com um "não fizeram mais que a vossa obrigação". E porque dizer não significa dar um passo largo em direcção ao despedimento.

Foi isto que se conseguiu?

2006/04/25

Welcome

Perda de tempo, foi o que foi. Mas por que levei eu tanto tempo a perceber que não tinha que ser perfeita? Por que levei eu tanto tempo a decidir viver por mim e não estar sempre dependente da opinião dos outros? Por que tive sempre tanto medo de dizer o que pensava, de admitir do que gostava, por que me escondi tanto?

Anulei-me, neguei-me, fechei a porta e agora está perra. Neste momento, quase 1 ano e meio depois de ter forçado a fechadura, destruindo-a para que nunca mais se fechasse, ainda só está entreaberta. Às vezes há quem espreite cá para dentro, mas a maior parte das vezes passa despercebida, como se aquela frincha fosse apenas um descuido. Outros, que convido, nem sequer se dão ao trabalho de a empurrar para tentar entrar.

É demasiado esforço, e é este não valer a pena que me custa.

Girls' Night In

Dantes, era a excitação da Girls' Night Out. Combinar, escolher a roupa, aprontar, sair pela noite fora para ver, ouvir, dançar e conhecer... Todos os santos fins-de-semana (que começavam à 4ª ou à 5ª) e vésperas de feriado, sem excepção, lá íamos nós, primeiro para o Bairro, mais tarde para a 24...

Agora, veste-se a roupa mais confortável possível, sem pensar muito no assunto, pega-se no carro e, de ano a ano, às vezes talvez um espaço de tempo maior, há uma Girls' Night In. Janta-se, contam-se num instante as últimas novidades, que são poucas, graças à rotina e parte-se para os novos assuntos que ocupam as nossas vidas: em vez de sonhos, problemas no trabalho, em vez de homens, hérnias, cálculos biliares e afins. A meio, sai-se para a varanda e assiste-se ao espectáculo que nos conseguiu reunir: o fogo de artifício em Almada, para comemorar o 25 de Abril. Ficamos à janela, longe da confusão e dos amassos do povo excitado pelo discurso da autarca e pelo concerto à borla, desejamos que seja bonito mas acabe depressa porque está frio e aquilo é pago com os nossos impostos e voltamos para dentro. Mais sofá, mais conversa, um concerto de Zeca Afonso nos anos 70, entre bocejos e olhos semiabertos... Mais um programa sobre o antes e o depois do adeus...

— Eu fiquei toda contente, naquele dia a minha mãe disse-me que não ia à escola porque havia revolução... tinha 8 anos, aliás, ia fazê-los dali a 2 dias... Usei um vestido vermelho, cujo tecido parecia um morango...
— Como é que tu tinhas 8 se eu tinha 11? Eu nasci em 66, e tu és da minha idade...
— Tinhas 11 anos? E nasceste em 66?
— Realmente, estava aqui a pensar como é que tinha 11 anos e ainda estava na 3ª classe...
— Sabes que mais? Vamos embora, vamos dormir que já não sabemos o que dizemos.

Eu até posso não sentir que estou prestes a abandonar os trinta, e não sinto mesmo, mas que sem eles nada disto aconteceria, é incontestável. E só falta pouco mais de um um dia e meio.

2006/04/24

Brain Jam

Dia surpreendente, o sábado que passou. Um dia de guardar segredo, porque há coisas que são mesmo só nossas, mesmo que nos apeteça gritá-las. Como não o posso, nem quero fazer, fico por aqui.

2006/04/22

T.G.I.F.

É isso. Mesmo sem acreditar no ser omnipotente que supostamente comanda o rumo do mundo, não posso deixar de agradecer, a quem* quer que tenha decidido que à sexta-feira se pára para descansar, a sua existência.

Amanhã, sem horários que me prendam, só vou fazer mesmo o que me apetecer. Que até pode ser nada. Por isso, Thank God It's Friday.

*Eu até ia procurar o autor da semana de 5 dias, mas neste momento não me apetece ir pesquisar o que quer que seja.

2006/04/21

Maus hábitos

Estou gasta. Esta semana devia ter acabado já hoje (ainda estou em quinta-feira). Já usei praticamente todas as energias da semana e, amanhã (sexta) ainda tenho que mostrar o que valho.

Sinceramente, devia haver um feriado todas as sextas ou segundas do mês, principalmente quando trabalhamos as 39 horas regulamentares em apenas 4 dias úteis. Ou então, não nos deviam mimar com páscoas, dias da liberdade, dias do trabalhador (e às vezes até pontes) e afins só de vez em quando.

Até porque isto de aproveitar o fim de semana para sair de Lisboa, estar com a família, passear com os gatos, ver coisas novas e outras velhas, matar saudades e amizades, enfim, não trabalhar, cansa. Cansa muito.

Por isso, feriados e pontes, ou sempre, ou nunca, para não quebrar o ritmo. Habitua-nos mal, ter mais tempo para descansar.

2006/04/20

Tumorezinhos de estimação

Ele há pessoas, que de há tanto tempo se relacionarem comigo, pensam que me conhecem. Enganam-se. Elas conhecem apenas a ideia que foram fazendo de mim ao longo dos tempos, sem nunca se terem preocupado em perguntar-me como me sinto, o que quero da vida, quais são os meus medos e os meus motivos. Apenas supõem.

Essas pessoas sabem sempre o que está por trás do que digo, do modo como reajo, da maneira como actuo. Sabem e não desarmam. Se estou com má cara, é porque estou com má vontade, mesmo sem saberem quantas lágrimas chorei antes de adormecer. Se chego tarde porque tive uma insónia, é certamente mentira, porque provavelmente estive a conversar na internet até altas horas. Se converso à parte com um colega que esteve fora 2 meses, é porque possivelmente estou a falar mal delas, assumindo, à partida, que há alguma coisa de mal para dizer.

Agora, sempre que me dizem que sabem perfeitamente por que foi que eu disse ou fiz isto ou aquilo, eu uso a palavrinha proibida que assusta qualquer mortal: tumor. São os meus tumorezinhos de estimação, que vivem no meu cérebro permanentemente e que, por isso, sabem tudo o que estou a pensar.

Que raio, para além de não conseguirem raciocinar fora do vosso mundozinho feito de ideias feitas, não percebem que incomodam?

Abaixo o grilo

Se há coisa no mundo que eu odeie, são grilos falantes. Sim, como aquele do Pinóquio, sempre a chamar-lhe a atenção, a dizer que as coisas são assim e assado e não podem ser de outra forma.

Desde pequena que não suporto que me digam “não vás por aí” sem me darem um motivo a não ser um “porque não deves”, “porque não é bonito”, “porque uma menina não faz isso”, “porque parece mal”. Não gosto, pronto.

Não quero dizer, de modo algum, que não aceite os motivos dos outros. Mas eu gosto, e faço questão, de descobrir por mim mesma, antes de comprar tudo o que me dizem. Arrisco-me? Pois sim, venham os trambolhões, as surpresas desagradáveis, as desilusões. Com tudo isso, aprendo e, fundamentalmente, sou eu, única, genuína, responsável pela minha vida.

Assumir uma atitude de grilo falante é, acima de tudo, pressupor que o outro, aquele a quem massacramos os ouvidos com expressões como “eu bem te avisei” ou “olha que…”, é incapaz e irresponsável. E isso é mesmo muito feio.

Bad day, bad day

A começar por ficar trancada na garagem logo de manhã,quando já estava pelo menos meia hora atrasada, até às suspeitas da minha irresponsabilidade a meio da tarde, não esquecendo as sucessivas desmarcações de horas de estúdio e o almoço de sande e sumo por elas causado, este dia foi para esquecer.

Sorveu-me as energias, as ideias e o último resto de vontade de tentar perdoar a quem teima, a todo o custo, em desacreditar-me profissionalmente.

Ainda por cima, amanhã há mais, porque as pessoas são as mesmas e os métodos os de sempre.

Resta-me esperar que se concretize o que disse, em tempos, a Silvia, "Toda a merda seca. E depois esfarela-se." Ele é dar tempo ao tempo.

Sim, Sílvia, andei a cuscar os teus posts antigos. E esta solução está pespegada na parede por cima da minha cabecinha, para me inspirar.

2006/04/19

Happy 41

À minha amiga Filomena, que anda na margem sul a lutar pela vida dela e pelos direitos dos outros, já para não falar dos pestinhas que atura diariamente, os meus Parabéns!

A burra presa (ou o dia em que perdi a minha mãe)

Os meus queridos progenitores têm a abjecta mania de simultaneamente me relembrarem de que tenho quase a tal idade e de me afectarem a responsabilidade de uma adolescente. Como tal, são inúmeros os episódios em que, precisando de mim, me mentem quanto à hora em que o importantíssimo evento familiar (vulgo almoço) vai acontecer, fazendo-me correr para depois ter que esperar pelo resto da família. Resultado: discussão atrás de discussão.

Certo dia, após 3 insistentes telefonemas para minha casa, lá saí eu a correr, direitinha a casa deles para os ir buscar para o almoço. A meia hora que tive que esperar redundou em nova discussão, para não variar.

Acabei por descer com o meu pai, pois ainda havia lixo para despejar. Entrámos no carro e, pouco tempo depois, ouço a porta por trás de mim a abrir-se, depois a fechar-se, liguei o carro e arranquei. Nos cerca de 2 km de subida que separam as duas casas, fui falando com eles, sem me surpreender com a falta de resposta da minha mãe que, sempre que discute comigo, prende a burra e se recusa a responder.

Entrei na garagem, fiz a manobra, desliguei o carro e voltei-me para trás para lhe dizer para sair pelo outro lado. Foi quando descobri que a tinha deixado na rua, sem chaves, sem dinheiro e sem telemóvel. A porta tinha-se aberto, sim, mas para ela deixar a mala.

A burra foi solta de vez, porque ela aprendeu que é muito feio não responder a quem fala connosco, a não ser quando somos pequeninos e é perigoso falar com estranhos.

De lavado

Que bom é o cheirinho a lavado, com ou sem sabão natural. Mas sem nódoas, e com um tom a condizer com o calor. Branquinho é bom, sabe a natas, a gelado de baunilha, ao meu copo de Vigor antes de dormir (e ao da manhã também). E sabe-me bem olhar para aqui e não ver tudo escuro, já que o que o espírito anda, por si só, enevoado.

Ele são as colegas a darem-me cabo dos nervos, um puto giro que me troca por uma mais nova, um quisto que me anda a dar dores de cabeça, uma vidinha que não anda para a frente nem para trás, um carro que anda tão para a frente que me arruína, 10 presentes para comprar daqui até 26 de Maio, não contando comigo, o chegar ao fim de semana tão cansada que só me apetece dormir, os filmes que ainda não vi por causa disso, os sítios onde ainda não fui...

Pois é, uma limpezinha sabe sempre bem.

2006/04/18

E-mail

Chegam a rodos. Piadas, piadinhas, filmes divertidos, outros menos, anúncios premiados, sequências de acidentes espectaculares, reflexões sobre a vida e a política, bocas aos políticos, correntes inquebráveis que satisfazem os nossos desejos mais íntimos se não forem quebradas, o que significa o seu reenvio para pelo menos 10 pessoas, fotos laboriosamente montadas em pesadíssimos ficheiros power point que me encravam o mac…

Todos os dias, ou quase todos, chega pelo menos um mail destes à minha caixa de correio electrónico. E, só de vez em quando, muito de vez em quando, chega um que me pergunta, simplesmente se estou bem ou que fala em vontade de me ver.

Chegámos a uma altura em que reenviar o que outros fizeram por nós, e que reenviaram para nós, é a única forma de dizermos aos amigos que estamos vivos. No entanto, nunca chegamos a saber se o destinatário o recebeu, porque é indiferente haver resposta ou não.

Se calhar sou exigente de mais, não me contento com saber que aquela pessoa que me enviou o mail se lembrou de me incluir na lista de destinatários. Se calhar penso de mais, se calhar sou eu que estou errada ao não fazer o mesmo diariamente.

Acho que não. Por mim, vou continuar a enviar apenas aqueles que considerar dignos disso, e também dar o primeiro passo para tentar manter contacto, com coisas que valham a pena dizer aos amigos.

2006/04/17

Home, incredibly sweet home

Cada vez me sabe melhor regressar a casa.

As minhas paredes vazias, o meu sofá, o meu computador, a minha cama, a minha powerbox, os meus livros amontoados por todos os cantos, o meu silêncio, o meu poder fazer tudo o que me apetece sem ser interrompida, o meu embrenhar-me nas páginas de um livro sem ser chamada para qualquer coisa que não é de todo importante...

Os mimos dos pais são bons, mas é aqui que eu consigo ser eu.

Fim de semana tudo-menos-santo

Mais uma vez, eu devia ter confiado no meu instinto. Está cada vez mais desenvolvido, fiável, este meu sexto sentido. Não devia ter saído de Lisboa este fim de semana. E muito menos sozinha.

Praia? No primeiro dia, nem apeteceu contemplar nada, de tanta chuva. Passeio com os gatos? E a lama no pêlo branco e nas patas? Amigos? Demasiado ocupados. Um dia perdido, uma sexta-feira que nada teve de santidade, seja lá isso o que for.

O pouco para fazer tornou-se nada, e o nada tornou-se muito em raciocínios desesperados sobre a vida que tenho, a vida que quis ter, a que nunca quis ter e que se parece demasiado com a actual…

De repente, aquele lugar que já foi tão meu, perdeu o encanto, ficou baço, já não me ilumina. Os sonhos que dele faziam parte desfizeram-se, as memórias são apenas fragmentos que já não conseguem reconstruir a história, ou o pouco de bom que esta teve.

Apenas o meu mar, o mar da fotografia, e um livro de Umberto Eco, salvaram, hoje de manhã, o último destes três dias.

2006/04/14

Praia!

Daqui a umas horas, assim que acordar, vou fazer a malinha, meter-me no carro e rumar a sul.

O meu mar, aquele mar que me faz tão bem está mesmo a pedir umas horinhas de contemplação (sem mergulhos, porque deve estar gelado). Depois, uma manhã na esplanada, com um café e uma água à frente a acompanharem o livro que vou devorar, vai saber que nem ginjas.

Ao fim da tarde, vou passear os gatos à volta do quarteirão (sim, eles passeiam comigo, voltam para casa quando os chamo e pedem-me para abrir a porta de manhã), depois janto e vou ao café reencontrar os amigos que não vejo desde Agosto.

Com tão pouco para fazer, mas tão bom, é garantido que volto bem disposta. Volto mesmo.

Me and my big mouth

Não há maneira de aprender. As pessoas são simpáticas para mim e lá vai resposta torta, sem motivo para isso. Mas também só acontece quando me tocam na ferida e porque não estou nos meus melhores dias. Ou seja, estou mais para baixo que para cima.

Preciso, desesperadadamente, de me apaixonar. Por alguém, pela vida, por mim, para que esse estado supremo anule qualquer influência negativa. Quando estou nas nuvens, estas até podem desfazer-se em raios e trovões que eu não dou por nada. Sou superior a tudo. Mas quando estou ferida, como agora, reajo como qualquer animal: mordo para me defender de mais agressões. Mesmo que estas o não sejam.

Já me desculpei directamente e faço-o agora em público, para o caso de me esquecer e de voltar a dar uma resposta torta a alguém. Assim, já sabem por que é, mesmo correndo o risco de ninguém se voltar a meter comigo.

Se eu fosse... e tu se fosses o que serias?

Se eu fosse...
Se eu fosse um mês, seria Setembro.
Se eu fosse um dia da semana, seria Quarta-Feira.
Se eu fosse uma hora do dia, seria meia-noite.
Se eu fosse um planeta ou astro, seria Vénus.
Se eu fosse uma direcção, seria aquela para onde estivesse virada.
Se eu fosse um móvel, seria um sofá.
Se eu fosse um líquido, seria água com gás.
Se eu fosse um pecado, seria a luxúria.
Se eu fosse uma pedra, seria lioz.
Se eu fosse uma árvore, seria uma faia.
Se eu fosse uma fruta, seria um morango.
Se eu fosse uma flor, seria um girassol.
Se eu fosse um clima, seria mediterrânico.
Se eu fosse um instrumento musical, seria um piano.
Se eu fosse um elemento, seria terra.
Se eu fosse uma cor, seria azul.
Se eu fosse um bicho, seria um gato.
Se eu fosse um som, seria um sussurro.
Se eu fosse uma música, seria "She", de Elvis Costello.
Se eu fosse um estilo musical, seria pop.
Se eu fosse um sentimento, seria paixão.
Se eu fosse um livro, seria... "Cem anos de solidão".
Se eu fosse uma comida, seria chocolate.
Se eu fosse um lugar, seria uma ilha.
Se eu fosse um gosto, saberia a baunilha.
Se eu fosse um cheiro, seria o cheiro a mar.
Se eu fosse uma palavra, seria "sentidos".
Se eu fosse um verbo, seria “explodir”.
Se eu fosse um objecto, seria um balão.
Se eu fosse uma peça de roupa, seria um roupão.
Se eu fosse uma parte do corpo, seria os olhos.
Se eu fosse uma expressão facial, seria uma careta.
Se eu fosse um personagem de desenho animado, seria "Jessica Rabbit".
Se eu fosse um filme, seria “Sem eira nem beira”.
Se eu fosse uma forma, seria um círculo.
Se eu fosse um número, seria o 5.
Se eu fosse uma estação, seria o Outono.
Se eu fosse uma frase, seria “Eu sou o que sou”.

Uma ideia original da Clementina Tangerina e copiada da Silvia sem Filtro.

2006/04/12

Resposta a um encoberto

Meu caro encoberto,

o corpo não passa de uma embalagem, uma aparência que, infelizmente, nos condiciona aos olhos dos outros. Faz parte da condição humana procurar o belo em detrimento do menos belo, somos formatados para isso desde que começamos a apreender o mundo. Cabe a cada um decidir ultrapassar a barreira, eliminar os filtros que lhe foram inculcados.

Quanto a um corpo novo, ele não existe. É absolutamente o mesmo. Nunca, desde sempre, e contra muitas críticas, deixei de fazer o que quer que fosse, nunca tive grandes inibições, nunca o meu corpo me impediu de nada. E se calhar é mesmo isso que irrita tanta gente.

É óbvio, claro, que custa passar uma vida inteira a não ter nome e ser conhecida como "a gorda", a ouvir nomes como "badocha", "baleia" e afins e ainda ouvir as palavras nojento, desmazelo e badalhoquice associadas ao excesso de peso. Dói mesmo muito quando os corpos perfeitos supõem que somos um bando de comilões que só sabe ficar deitado no sofá a enfardar bolos, chocolates e potes de gelado enquanto vê séries românticas e sonha com príncipes encantados e milagres impossíveis.

A felicidade pelo supostamente novo corpo só tem que ver com a possibilidade de finalmente sair do ghetto a que somos confinados por essa ditadura da imagem chamada moda. A partir de agora, tenho mais opções, não tenho que me limitar a uma ou duas marcas de roupa que ainda se lembram de que as pessoas com excesso de peso também gostam de vestir de acordo com a idade que têm (e não usar roupa igual à das avós) e que, por esse altruismo, cobram o dobro ou triplo do preço.

Estou feliz, sim, mas apenas porque ainda há pessoas que conseguem ultrapassar as barreiras e sabem que um corpo é muito mais do que só isso.

Roupinha nova


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E corpinho também.

Não há nada melhor que ir comprar roupinha e descobrir que vestimos um número abaixo daquele que vestíamos há dois meses atrás. E ouvir alguém dizer que já não precisamos de comprar roupa nos tamanhos grandes, porque já somos pessoas normais. O pior de tudo é o entusiasmo que mostramos a abrir a carteira. Estou oficialmente arruinada. Mas feliz.

Mau contacto

Alguém me ajuda a desligar isto? Este sentimento de abandono que não me larga desde que o silêncio se instalou? Que, de boa vontade, deixei alguém partir porque sabia que era melhor assim? Só não esperava tanto mau contacto. Preciso de a arrancar da tomada, mas não quero cortar o fio. Seria ridículo desligar-me para sempre de alguém que me fez tão bem. De qualquer modo, preciso, definitivamente, de desligar esta corrente que passa por mim. Alguém me dá uma mãozinha?

2006/04/10

Desafinação

Aconteceu-me outra vez. Mal acordei, as palavras-acordes estavam perfeitas na prosa que compus. É todos os dias assim, começo a cansar-me de perder a pauta mental no caminho da cama para o teclado. Cheguei aqui e, pelo caminho, uns poucos metros, perdi meia dúzia de notas que, por mais voltas que desse, não consegui recuperar. E nada funciona quando há espaços em branco. Simplesmente, não faz sentido. Não o sentido que quero, não a melodia que compus assim que abri os olhos.

Adoro ficar deitada, depois de acordar, a compor os sonhos que queria ter tido durante a noite. A completar as histórias que me adormecem e que conto a mim própria em silêncio. O meu despertar é o melhor momento do dia, em que nada ainda desfez a glória de um dia novo. Quando há sol, os primeiros raios atravessam as frinchas do estore que deixo propositadamente entreaberto e pontilham de pequenas partículas de ouro a parede em frente a mim. Depois, é inevitável, viro-me e olho para as minhas mãos. Estão cá, mexem, estão prontas para criar em sintonia com a mente.

Mas quando chega a altura de as deitar à obra, por mais que elas queiram, perde-se a harmonia e simplesmente não sai nada. Ou sai desafinado.

2006/04/09

Alguém me agita?

Pronto. É isto, nada mais que isto. Traçado regular, nem uma ponta de emoção, nem um sobressalto de prazer. O meu coração bate assim, sempre ao mesmo ritmo, numa rotina que inquieta de tão instalada.

Apesar de serem boas notícias do ponto de vista da saúde, quem é que aguenta uma vida sem uma ponta de emoção, sem um acelerar devido à paixão? Olho em volta e nada o faz bater mais depressa. Assusta-me este não sentir nada, este não desejar ninguém, este não me entusiasmar. Eu não sou assim, não quero ser assim. E, todavia, até me sinto bem neste navegar sem ondas, neste rumar sem destino. Vagueio pela vida, apenas, sem ainda ter percebido para onde quero ir depois de já ter chegado aqui.

Preciso, mais do que nunca, de um abanão, de um grito que me acorde desta sonolência. Alguém me agita?

2006/04/08

Só para chatear

Só faltam


19


Só para mostrar que já aprendi a aumentar o tamanho da letra num mac, assim como a fazer outras coisas. E tudo graças à grande Sílvia, mesmo aqui ao lado.

Cópia

"Se há algo que queres muito atingir, tens de te tornar na pessoa capaz de tal atingir. Isso implica mudar, transformares-te. Não te enganes pensando que podes atingir tudo mantendo o mesmo modo de ser e sentir. Cada estado de ser contém a sua dose de limitações e liberdades."
copiado de animah, em (don't) call me back

Copiei porque é verdade, é mesmo. Eu sei. Ainda estou a meio do caminho, se calhar nem tanto, mas eu chego lá.

2006/04/07

Acho que sim.

Então Queres Ser Escritor?

se não vem de rompante de dentro de ti
apesar de tudo,
não o faças.
a não ser que surja sem o esperares do
teu coração e mente e boca
e entranhas,
não o faças.
se tens que te sentar durante horas
fixando o ecrã do computador
ou curvado sobre
a máquina de escrever
à procura de palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma vez e outra,
não o faças.
se te for difícil sequer pensar
em fazê-lo,
não o faças.
se estás a tentar escrever como outro
qualquer,
não o faças.

se tens que esperar para que ruja de dentro
de ti,
então espera pacientemente.
se nunca ruge para fora de ti,
faz outra coisa qualquer.
se precisas de o ler primeiro à tua mulher
ou à tua namorada ou namorado
ou aos teus pais ou a outro alguém,
não estás pronto.

não sejas como tantos escritores,
não sejas como tantos milhares de
pessoas que se intitulam escritores,
não sejas chato e aborrecido e
pretensioso, não te consumas com
auto-estima

as livrarias do mundo
bocejaram
de sono
com o teu género.
não sejas mais um.
não o faças.
a não ser que saia da
tua alma como um foguetão,
a não ser que estar parado
te levasse à loucura ou
suicídio ou assassínio,
não o faças.
a não ser que o sol dentro de ti
esteja a queimar as tuas entranhas.

quando for o momento certo,
e se tiveres sido escolhido,
far-se-á
por si só e continuará a fazer-se
até que morras ou morra em
ti.

não há outra forma.

e nunca houve.

Charles Bukowski
de new poems book 1, Virgin Books, 2003

Belo dia para começar de novo. Já passa da meia noite e ainda estou na agência, à espera nem sei bem de quê. Por isso, pus-me a passear e dei com este poema, numa página que encontrei a partir de um link no There's Only 1 Alice.

É engraçado como sem querer, ou sem saber que queremos, encontramos inesperadamente coisas que nos dizem muito, que nos fazem perguntas em cuja resposta nunca pensámos. Não sei muito de Bukowski, como não sei de muitos outros, mas as suas palavras puseram-me à procura de sóis ardentes nas minhas entranhas e fizeram-me sentir que há qualquer coisa em mim cheia de vontade de sair. Ainda não sei o que é, não sei se serei chata ou aborrecida, nem se farei bocejar de tédio os livreiros e leitores, mas parece-me, cada vez mais, que a resposta à pergunta é sim. Acho que sim. Só estou à espera do momento certo.

(Na tradução há uma coisa ou duas que não me agradam, mas foi feita sem dicionário. Logo se melhora. Já agora, só faltam 20 dias.)

2006/04/05

Time to start anew

Menti. Afinal, o tal post não volta para aqui hoje. Nem sei se volta, pois não o encontro em lado nenhum. Se calhar, como digo às vezes, não o encontro porque não tem que ser, porque o seu destino era perder-se. Afinal, fala de um estado de espírito que já passou, que já não tem razão de ser e que não sei se voltará a repetir-se. Um “estado de patetice” típico de quem está apaixonado, de quem não quer fazer nada porque só lhe apetece pensar no que quer fazer com alguém.

Que feliz que eu fui nessa altura, que bom que era saber que alguém me queria. Que trambolhão, depois, ainda ando a recuperar dos arranhões na pele e das dores no coração. Mas, garanto, são daqueles que não deixam cicatrizes, antes uma sensação de ardor quando muda o tempo, não para o frio, mas para o calor. Verão bom, o do ano passado, em que sonhei, sonhei, sonhei e até acreditei que era verdade.

A partir de agora, não vou conseguir olhar para o mar sem me lembrar de uma certa onda, não posso ouvir algumas músicas sem pensar no teu nome e não posso ir de Lisboa ao Porto sem me lembrar de que um dia fiz um desvio a meio da viagem para conhecer a tua terra. São os tais borrões que ficam, deixados pelas palavras ditas.

Confio no poder do tempo e na falibilidade da memória para os disfarçarem, e confio também que um dia, alguém infinitamente melhor que tu me tornará cega a estas marcas. É tempo de começar de novo, e não vou esperar um dia, muito menos 21.

Irreversibilidade

No dia em que comecei a trabalhar, acabada de sair da escola, passaram-me para as mãos um trabalho importantíssimo: escrever uma carta com apenas 3 linhas de texto, para além do destinatário e da assinatura do remetente. É canja, pensei, sem saber que para além da folha A4 convencional, esta era acompanhada por 3 cópias em papel fininho, tipo vegetal, intercaladas por folhas de papel químico. Pois é, a canja azedou, e as tais 3 linhas transformaram-se numa epopeia de um dia inteiro. Ora não estava centrado na página, o que era difícil de calcular antes de tirar o papel da máquina ou, então, quando finalmente achava que o trabalho estava perfeito, à custa de fita correctora e fotocópia do original, os erros e manchas da passagem da borracha nas cópias a químico, continuavam lá.

É assim também com o que dizemos. O que é dito uma vez, não pode ser desdito. Podemos retractar-nos, voltar atrás, pedir desculpa, não pedir desculpa, passar a borracha, mas tudo o que dissemos fica. E o que escrevemos fica ainda mais. É por isso que é tão difícil isto de escrever. Um erro, um só erro, marca-nos e deixa marcas.

Quando apenas se diz algo, ainda há a esperança de que a erosão do tempo mude as formas às palavras, aligeire o insulto, modere a ofensa, pois a memória é falível e bondosa. Mas quando se escreve, não. Está lá, preto no branco, chegando a ser vermelho gritante quando o disparate é grande. A não ser que se destrua, não se pode retirar, não se pode apagar sem deixar vestígios.

Não é possível resgatar uma carta que seguiu pelo correio, não se pode interromper o caminho a um e-mail enviado, é pouco provável conseguir apagar um post que nos desvenda a vida antes que este seja lido por alguém que depois reclama a sua reposição.

Seja como for, comigo é assim. Está dito, está dito. Depois é assumir, sem remorso ou ressentimento. Se me arrependo do que digo? Às vezes sim, mas não retiro. Explico-me, desculpo-me se achar que devo, tento reparar o erro, se errei. Mas não volto as costas, não fujo, não minto, não dou desculpas esfarrapadas.

E deve ser por isso que me sinto só num mundo em que o disfarce, a dissimulação e hipocrisia reinam. Seja, se é assim que eu acho que devo ser.

Só faltam 22 dias. Quanto ao post retirado, regressa amanhã.

2006/04/04

Vá lá!

Escreve, vá lá, escreve qualquer coisa. Precisas de o dizer, diz. Pega nas palavras e põe-nas no papel.

Estou aqui há horas, nesta luta. Acontece-me todos os dias. Venho pelo caminho a construir a história, o texto, o desabafo. Falo sozinha enquanto conduzo, preciso de lhes ouvir o som, tal como preciso de as ver preto no branco para ver se fazem sentido. Porque há umas que não ficam bem ao pé das outras, e outras que se repetem sem sentido. Guardo tudo, num cantinho, estava lindo o que pensei pelo caminho, enquanto a única coisa em que me concentro é na traseira do automóvel da frente e a proximidade do cruzamento onde viro.

Quando chego a casa, uma casa vazia e silenciosa, é o vazio também. Foram-se as ideias, fica apenas a vontade de um toque na campainha, a campainha de um telefone a tocar para me dizerem "posso ir aí, quero ver-te, tenho saudades..." Estou farta deste exílio, desta dormência, destes silêncios. Será que ninguém, para além da minha família, se lembra mesmo de que eu existo?

Será por culpa de terem entranhado em mim a ideia de que não devo incomodar os outros que eu também não consigo procurá-los? Terá que haver uma culpa ou as coisas são mesmo assim?

E então vem a voz, escreve, vá lá, escreve, sempre te faz bem... Mas ao escrever estou a mostrar-me, não a quem me conhece mas a quem nunca, provavelmente, me conhecerá para além disto. O que torna tudo muito mais simples.

Até amanhã, quando já só faltam 23 dias.

2006/04/03

1-1

Empate. Este fim-de-semana, sofri um golo, ou seja, resolvi descartar de vez da minha vida alguém que fez parte dela durante quase um ano. Foi uma baixa numa batalha que durava há meses. Eu que sim, ele que não, que não valia a pena. E eu sem acreditar. Não gosto de desistir à primeira, é contra tudo o que sou, deitar pessoas foras não é comigo. Ou não era, porque estou finalmente a compreender que tenho que levar menos tempo a perceber que não me merecem e que tenho que perdoar menos. Tudo o que senti por essa pessoa se foi num silêncio em resposta a um desesperado pedido de ajuda. Sob pena de parecer repetitiva, continuo a achar que um amigo não nos ignora, antes fica atento aos mais pequenos sinais. Por isso, adeus, J.

Sem que nada tivesse que ver com isto, mais uma vez este fim-de-semana percebi quais são as pessoas (neste caso, uma pessoa) com quem podemos contar. Sabe bem, poder ligar a alguém e dizer "vou aí", nem que seja para ficarmos as duas deitadas num sofá a tentar não adormecer enquanto vemos um filme de muito pouca qualidade. Serve, pelo menos, para distrair os olhos enquanto falamos de tudo e mais alguma coisa, de amores, desamores, experiências, aventuras passadas. Sabe bem falar, ter com quem falar. Obrigada, Bé, mais uma vez. Estás sempre lá. E eu aqui.

A vida é assim. Perde-se um, mas guarda-se outro. E já só faltam 24 dias.

2006/04/01

Bom dia, hoje

Nunca é fácil tomar decisões, principalmente quando elas põem em causa tudo o que pensámos até agora. Objectivos, carreiras, pessoas que encontramos pelo caminho, colam-se à nossa vida e pesam quando queremos pensar racionalmente. Até porque é deveras confortável reclinarmo-nos na rotina, sabendo o que nos espera em cada dia. Não há surpresas, não há sustos e vamos deixando correr, por mais que isso nos afecte psicologicamente, sem que muitas vezes demos por isso.

Mas há dias, como o de hoje, em que os acontecimentos são de tal forma brutais que o estrondo que nos provocam na alma nos desperta e faz reflectir. E então, ou fechamos os olhos e deixamo-nos continuar na mesma, num sono que já não é satisfatório, muito menos reparador, ou abrimos bem os olhos e olhamos bem à nossa volta, acabando por fixar o olhar bem em frente, ignorando quaisquer obstáculos.

Hoje foi um desses dias. Quem pensou que me dobrava, equivocou-se. As mentiras, os rodeios, as atitudes subreptícias e cobardes só têm o poder de me espicaçar, como a um touro que continua a investir enquanto se esvai em sangue na arena.

Bom dia, hoje, em que descobri um caminho. Agora, vou desbravá-lo.

Já agora, só faltam 26 dias para o dia 0.

2006/03/31

Já passaram mais 24 horas

Nem pareceu. Eles passam cada vez mais depressa. Não dou por eles, no meio deste não acontecer nada de novo. Sai-se de casa, faz-se o mesmo caminho de sempre, tão de sempre que já nem se repara nos sítios por onde se passa, entra-se a porta, diz-se bom dia à Manela, vai-se à máquina do café tirar o curto de sempre e sobe-se. Depois, é trabalho para cá, trabalho para lá, dois dedos de conversa aqui, almoço, a tarde igual à manhã, e sai-se. De novo, o regresso, à tarde às vezes pelo Monsanto, que aquele verde todo faz bem e foge-se ao trânsito. Chegar a casa, jantar, ver televisão e vir para aqui deixar umas letras espalhadas num fundo escuro. Hoje ainda houve uns desvios necessários, que cortaram ainda o tempo ainda mais ao meio, e um telefonema que trouxe alguma luz, mas de resto, foi a rotina. Tenho que a expulsar da minha vida, ai tenho tenho. E já só faltam 27 dias.

2006/03/30

28

Só para marcar o dia (que até já acabou), que a inspiração perdeu-se-me numa conversa de há pouco.

2006/03/28

Já passou

Foi só o primeiro impacte. A verdade é que me sinto tudo menos com quase (até receio dizê-lo) 40 anos. E não me sinto dessa idade porque considero que não vivi tudo o que queria ter vivido já. Por exemplo, um grande amor, daqueles de loucuras, de fugas, de mentiras esfarrapadas, de vontade de dar a vida por alguém.

E sempre por medo. Sempre aquele receio de não atingir a perfeição, sempre aquele retrair-me em função dos outros. Sempre aquele calar as vontades, desistir a meio, não lutar por achar que ainda não era daquela que valia a pena.

E agora, agora vem o medo de já não conseguir fazer. Primeiro, é o corpo que deixa de ser o mesmo. Não no aspecto, mas na vontade, na resistência, na energia. Depois são os outros que dizem que agora já não posso isto, já não posso aquilo. E a revolta, porque eu sei que posso, mesmo que me achem ridícula.

Até porque tenho chegado sempre atrasada à vida. Para começar, eu deveria ter nascido em Março, não em Abril. Mas atrasei-me, não sou de pressas. A minha adolescência começou aos 15, dois anos mais tarde que o estipulado, e durou até bastante tempo depois dos 20.

A 29 dias do prazo quando já não há volta a dar, que os 40 correm para mim como correm os segundos de um minuto, sem darmos por eles, sinto que essa não é, de forma alguma, a minha idade. E lembro-me de uma frase (que já usei aqui) que um amigo me disse um dia: “Que idade terias se não soubesses a idade que tens?”

Por isso, ó outros, ó amantes de regras e convenções, livrem-se, a partir de agora, de me dizer “olha que já tens idade para ter juizo”.

Simplesmente, é exactamente a partir de agora que não me apetece tê-lo.

2006/03/27

Countdown

Já só faltam 30 dias. 30 dias para começar mais uma década da minha vida. Deveria sentir-me feliz por ser saudável, ter uma vida financeiramente estável, embora mediana, uma família que me ama, ambos os progenitores vivos, duas sobrinhas maravilhosas... Mas falta-me qualquer coisa.

Desde há algum tempo que me incomoda o sentimento de que fala o tal autor que tanto me inspira ultimamente, e que a seu tempo revelarei. O sentimento de "para quê". Para quê tanta correria, para quê tanto stress, para quê tudo o que fiz até hoje? Para ter casa? Para ter carro? Para ter bens? De nada me servem.

Continuo só. Sinto que o tempo se me esvai rapidamente, e que o desperdicei demasiado, por medo. Apenas por medo de falhar, de não ser perfeita.

Faltam 30 dias para se me acabar o prazo limite da juventude, como se acabam prazos de entrega de IRS. Não sou eu, são os outros. O inferno dos outros. E, sozinha, eu não estou a aguentar.

2006/03/21

“Rio-Lisboa, rio-Lisboa”

Pintem-me o cabelo de branco de algodão. Apanhem-mo atrás num carrapito feito de uma trança quase impecável, não fossem os eternamente rebeldes cabelitos espetados. À frente, uma franja perene de cabelo de bebé, que encaracola também, para desespero de qualquer cabeleireiro (e meu). E ei-la, a minha bisavó,a ti Encaracolada. Chega a ser assustador, olhar-me ao espelho e vê-la, tal e qual eu, a olhar para mim no meu reflexo.

Gertrudes foi lavadeira de Caneças, de trouxa de roupa à cabeça Calçada de Carriche acima. A pé, que os eléctricos partiam do Lumiar. “Rio-Lisboa, rio-Lisboa”, dizia o meu bisavô, pois quem a queria ver era na sua lida fora de portas. Mais tarde, foi caseira numa quinta para os lados de Sintra, e de vez em quando, ia de carroça com as netas vender cebolas a Cascais.

Quando me lembro de a conhecer, já não trabalhava, vivia em casa da minha avó e, sempre que era preciso, tomava conta de mim ou do meu irmão. Sempre que ia a Lisboa (que era, na altura, coisa digna de roupa domingueira), lá trazia da cidade uma guloseima para os netos e, quando podia, lá me costurava um vestido de bonecas.

Inteligente, aprendeu a ler sozinha para poder consultar no jornal a necrologia, não fosse ter chegado a hora de alguma amiga ou cliente. Esperta, determinada, inconformável, incansável, tanto que se poderia dizer acerca dela. No seu último ano de vida, passou uma temporada em casa dos meus pais e, apesar de isso implicar termos de partilhar o quarto, era-me indiferente. Aquela era a avó das avós e, acima de tudo, aquela era outra de mim.

Apesar de ter traços do meu pai, e algumas parecenças com a minha mãe, é com a minha bisavó Gertrudes que me pareço no geral, duas gerações depois. Há dias, voltei a vê-la no espelho, num dia em que apanhei o cabelo. Lá estavam os caracóis rebeldes, os olhos pequenos e vivos e a expressão de que me lembro tão bem. E estão também o “rio-Lisboa, rio-Lisboa”, a vontade de aprender, a determinação, o inconformismo e a minha relação com as minhas sobrinhas, que é feita dos mesmos gestos que ela tinha comigo.

2006/03/14

Era só isso

Era só isso. Um atrasar de passo, que os teus são mais longos que os meus, um parares ao pé de mim, exactamente ali, naquela esquina. E, sem eu te dizer, perceberes porquê. Tu saberes que eu não resisto ao apelo da terra, tu entenderes que eu preciso de parar para absorver as coisas, para as tornar minhas. Saberes que preciso de ir devagar para levar os cheiros, as cores, os gestos, os pormenores comigo. Tu saberes que me demoro a olhar a sombra do meu pé antes de pousar no chão, a contar com os olhos os tufos de flores rebeldes no relvado cuidado do jardim, elas que se recusam a não florir ali, e que são como eu, que não me resigno. Tu saberes qual é a minha cor de céu preferida e que é aquela do fim do dia, um azul meio turquesa, meio petróleo, e Vénus a piscar para mim, às vezes a lua já a espreitar. Tu saberes que gosto do teu braço à minha volta, e de encostar a cabeça a ti enquanto caminhamos. E tu parares comigo ali, naquela esquina, de uma rua qualquer, a sentir o primeiro cheiro da primavera num fim de tarde de Março, para o levarmos connosco para casa. A nossa casa. Era só isso, era só isso que eu queria.

2006/03/13

Vamos ver no que isto dá

Caso tenham reparado, lá “postei” eu, há dias, um daqueles testes que por aí andam em barda. Queria deixar aqui qualquer coisa, para provar que ainda por cá ando, e lá ficou aquilo. Depois, de cada vez que abria a página e olhava para ele, dava-me arrepios. Que coisa tão feia, quem se lembraria de uma tal imagem para ilustrar uma inteligência linguística? Foi por isso que o retirei, já não suportava olhar para aquilo (para além de que podem achar que sou uma tonta por acreditar naquilo, ou uma maria-vai-com-as-outras que, definitivamente, não sou).

É verdade, preocupo-me demasiado com o que os outros pensam de mim. E, como todos, gosto de elogios. Este teste, por exemplo, só veio confirmar as palavras de alguém de quem bebia as palavras e quem muito admirava, embora passasse a vida a considerar-se um chato. “És uma arquitecta das palavras”, disse-me ele numa das nossas últimas conversas. E, vindo de alguém que conhece autores que eu nunca li e queria ter lido já, foi o melhor elogio que recebi até hoje.

Depois, há a minha uxka, que me exige que escreva, pois adora ler-me. E também a Bé, que descobriu finalmente como se entra num blog, embora não saiba comentar, e que tem perdido algum do seu precioso tempo a ler-me. E um amigo de um amigo, que eu não imaginava sequer que se interessasse por isto, que se chateia comigo quando eu apago posts dos quais me arrependo por serem muito pessoais (eu prometo que volto a postá-lo numa ocasião propícia, ou quando o encontrar). E a Hipatia, o Gaivina, a Jacky, e todos os outros bloguistas que por aqui passam, parecem gostar de me ler também.

Tudo isto porque me ando a sentir mal por não escrever, por não ter nada de novo para dizer. Para começar, o trabalho leva-me grande parte das ideias diariamente. Eu bem anoto temas, ideias, frases iniciais, títulos, que depois ficam perdidos em ficheiros guardados nem sei bem onde, nem com que nome. Mas chego a casa e só me apetece não pensar. E escrever só por escrever, contar o que se passou no dia que acabou só para dizer alguma coisa, dizer umas piadas só por dizer, não é o meu estilo. Gosto de pensar, de fazer pensar, de provocar agitação, e não tenho ficado satisfeita com o que escrevo.

No entanto, há esperança. Alguém entrou na minha vida que me está a deixar com vontade de retomar a escrita. Estou a beber as palavras dele e a sentir o que ele sente. Não pretendo, de forma alguma, estar à altura de tal personalidade, com uma obra magnífica, mas que lê-lo está a puxar por mim, é uma verdade.

Vamos ver no que isto dá e, entretanto, sejam sempre bem-vindos.

2006/02/25

Defeitos e Manias

A minha querida uxka, arrastada por um certo Zig, agarrou-se-me ao braço e levou-me com ela neste desafio de mostrar ao mundo quais são as minhas manias ou defeitos. E, como ela bem sabe, até porque na minha condição de “Touro” não resisto a um panito vermelho agitado em frente dos olhos, nunca digo que não a um desafio. Por isso, aqui vão eles:


Curiosidade
Há quem a considere um defeito, o que me tem prejudicado seriamente, mas eu não resisto a saber mais e mais, sobre tudo. Levam-me a mal esta forma de ser, mas garanto que todas as “informações” que colecciono avidamente servem apenas para aprender a vida como ela é.

Tiques
Sim, já tive vários. De roer as unhas a “catar” pontas de cabelos espigados, entre outros que não confesso, limito-me agora, e apenas em situações de nervosismo extremo, a enrolar madeixas de cabelo em volta de um dedo. Ininterruptamente, até ficar com dores nos braços.

Burrice
Detesto gente burra. Não aqueles que, por não terem aprendido, não sabem mesmo, mas aqueles que pretendem dar ares de saber e, no fundo, só dizem disparates. Detesto também aqueles que não querem aprender porque não estão para isso, ou porque haverá sempre alguém a quem perguntar.

Mentiras
Abomino mentiras, sejam elas de que cor forem. Ainda por cima, sinto que possuo um dom para apanhar em falso todos aqueles que mentem, até porque se esquecem que não é preciso andar a fazer perguntas para se descobrir a verdade. Bastar estar atento.

Falta de Civismo
Como a minha querida amiga, também eu detesto que se esqueçam de dizer obrigado, pedir por favor, pedir licença para passar ou entrar ou de pedir desculpa quando nos dão encontrões na rua. Aqui incluo também aqueles que, no trânsito, se armam em espertos furando filas, ultrapassando por onde não devem e colando-se à traseira do carro dos outros só para tentar mostrar que o deles é melhor.

Agora, a parte chata de me agarrar a outros 5 bracinhos para os trazer comigo neste desafio. Já troquei comentários com alguns, com outros nem por isso, mas regras são regras e eu gosto de as respeitar.

E os nomeados são:

anukis
Voz em Fuga
Filo Sofia
Silvia Sem Filtro
Tristes Tópicos

[Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blog´s aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog]

2006/02/14

Rabujenta, eu?

Eles dizem que sim, que eu sou, mas eu acho que não. Rabujenta, eu? A quem fazem levantar da cadeira, sair da frente do meu jogo de computador, para olhar para um trabalho que supostamente também é meu para ver se a outra pessoa não se esqueceu do acento no i? Ainda se me pedissem opinião sobre a cor ou sobre a forma… Nah, como eu não sou fashion victim ficam a pensar que não consigo olhar para um círculo e dizer que um quadrado ficava melhor porque contrasta com a forma do logótipo… E no fim, o que contam são os bonecos. Só pensam nas aparências… Já os meus pais me dizem o mesmo, que eu devia ir ao cabeleireiro mais vezes, usar um saltinho alto e um fatinho porque sou dra… (que não sou, sou só licenciada, não tenho dessas peneiras). Bah, e isso lá tem importância? Pronto, eu sei que uma roupinha janota ajuda, mas quem é que no seu perfeito juizo aguenta um dia inteiro de saltos? Eu sei que o carro até está à porta, e que mal chego me sento, mas não compreendo por que é que tenho que sofrer? Repararam, escrevi por que e não porque. Essa é outra. Eu escrevo separado e vem um esperto qualquer e junta. Depois eu digo para separarem outra vez, porque assim é que é correcto. E dizem-me que não, que o cliente quer assim, e pronto, façam lá a vontade ao freguês, mas olhem lá que eu não assino isso. Cambada de idiotas, só porque têm dinheiro podem fazer tudo o que querem. Conheço muita gentinha assim, a quem põem em pedestais por causa do dinheirinho. Eu não, ora essa, era bem o que me faltava. Abrem a boca e vê-se logo o que são. Há-dem, deiam-me, a gente fomos a Roma… Coisinhas mais lindas saídas de boquinhas pintadas com bâton Chanel… Eu cá não tenho manias, sou o que sou… O que mais me chateia é que me bajulem por causa do dra antes do nome no livro de cheques. É que eu nem soube de nada, assinei os papéis e pedi para me irem abrir a conta. Vai na volta, o esperto lá do Banco resolve mandar pôr o título no cheque, nos cartões, por aí fora. Às vezes dá jeito, mas ter que aturar o sr dos livros, a cada trimestre, a bater-me à porta e chamar-me dra para cá, dra para lá, não dá. Só lhe falta fazer-me uma vénia. Eu já lhe pedi inúmeras vezes, não me chame dra que eu não gosto, mas ele responde sim dra de cada vez que fala comigo, a gaguejar, o que ainda é mais irritante. Com isto tudo acabo por ter pena da criatura, e lá vai mais um livro a contribuir para o caos lá de casa. E se não gastasse tanto em livros já podia ter comprado uma mobília completa para o quarto, afinal ganho tão bem. Mas o que é que eles têm a ver com isso? Rabujenta, eu? Eles é que me fazem assim.

Este post foi escrito para participar num desafio proposto pelo Isto não é o da Joana, que pelos vistos não teve participantes que chegassem. Por isso, publico eu.

2006/02/10

Publicitária? Naaaah!

Até há pouco tempo eu pensava que era copy. Não podia haver melhor: pagarem-me para escrever, e darem-me os meios necessários para o poder fazer bem feito, a tempo e horas e com qualidade. Mas agora já não sei. De há uns anos para cá, e principalmente nos últimos tempos, os genes do passado atacaram-me e eu estou a começar a sentir-me na pele dos meus antepassados. Se não, vejamos:
· Há dias que passo a encher chouriços - dão-me as coisas, amasso bem amassadinho e produzo uma belíssima fornada de balelas, sem ter tempo para pensar decentemente ou concentrar-me. "Faz-me lá um headline para isto, ou escreve mais um e-mail a dizer que vem aí uma novidade", ouço frequentemente (o meu avô paterno era salsicheiro).
· Outros dias, no meio dos chouriços, aparecem também fogos para apagar – "Tens que fazer isto para hoje ao fim do dia", sendo que isto é dito depois da hora de almoço (o meu avô materno foi bombeiro).
· Uma vez por outra, e cada vez com mais frequência, o meu monitor em 3ª mão recusa-se a ligar-se de manhã e, como o técnico está a alimentar outros computadores de meados da década de 90 com balões de soro, eu tento uma vez e outra e lá ligo a maquineta (o meu avô materno também foi mecânico).
· Em vez de grandes campanhas, de coisas bem pensadas, está-se sempre a aviar os clientes, como eles querem, quando eles querem, porque eles querem (a minha mãe e avó materna tiveram uma mercearia).
· Os trabalhos passam de mão em mão, ou seja, de criativo em criativo, para ver quem é que consegue chegar a uma solução, e passa-se o tempo a remendar o que já está feito, até chegar a uma coisa mais ou menos (a minha mãe a minha tia foram costureiras).
· Finalmente, com isto tudo, passa-se o dia num insuportável clima de cortar à faca, ou melhor, a cutelo (o meu pai teve um talho).
Se isto não são os antepassados a chamarem por mim, então não sei o que será. Talvez a crise, que é desculpa para tudo.

2006/01/29

Atitude

Esta vem com o atraso de uma semana, mas eu gosto de pensar antes de falar e às vezes levo um tempo exagerado (muitas vezes, só fico a perder). Mas aqui vai.

Em Fevereiro do ano passado, se não me engano, na 2ª feira a seguir ao dia das eleições, os meus colegas de trabalho chegaram ao bar da empresa para o primeiro café da manhã, viraram-se para mim e disseram: "Então ó fascista, estás contente?! Perdeste!". Eu só respondi que até estava contente, porque finalmente os senhores da esquerda iam poder provar que eram melhores. Tinham tudo nas mãos, com uma maioria absoluta, e agora é que era ver o país começar a mudar para melhor. É o que estamos a ver, mas todos merecemos uma oportunidade.
Na semana passada, depois de ter passado todo o período de campanha eleitoral a ouvir críticas àquele que todos já sabíamos que ia ser o novo PR, a ser crucificada por defender aquele candidato, a ouvir disparates como "vai ser terrível se ele ganhar, porque vai fazer isto e aquilo" de quem não tem a mínima noção das funções de um PR, cheguei à empresa e... nada. Nem uma palavra. Nem um "Deves estar contente, ó fascista!". Durante uma semana inteira fiquei à espera de ouvir alguém comentar a vitória de um e a derrota de outros. Nada. Silêncio.
Gente engraçada, esta. Só dispara contra quem está desarmado.

Traição

“Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações.”

Fazes-me falta, Inês Pedrosa

Num livro que estou a ler, deparei-me com uma afirmação que fala sobre a facilidade com que, por medo ou egoísmo, o verniz da camaradagem entre amigos desaparece. E é assim, realmente, que se descobre quem é e quem não é nosso amigo.
Os amigos não traem. Os amigos apoiam-nos quando estamos em baixo, incondicionalmente. Os amigos preocupam-se, perguntam, oferecem ajuda. Os amigos não saem a correr para nos acusar.
O medo, a insegurança, o egoísmo levam-nos a atitudes irracionais e a deitar cá para fora o que há de pior em nós. É o salve-se quem puder, passando por cima de tudo e de todos.
Na empresa em que trabalho, vive-se um ambiente de medo, de injustiça, de totalitarismo, de quase ditadura. Sussurros, portas fechadas, segredos são parte do dia-a-dia. No meio disso, não se admite que alguém possa pensar ou sofrer por alguma coisa que não tenha que ver com a empresa.
Sim, tudo indicava que eu estava desmotivada. Amei, arrisquei, perdi. E essa derrota levou-me a vontade de sorrir e trouxe-me o desejo de desistir de tudo. Quem me acusou não quis saber quantas lágrimas chorei, quantas noites de sono foram interrompidas pela saudade. A vaidade, o egoísmo, o medo sobrepuseram-se a qualquer outro sentimento.
Agora que, depois de estalado, o verniz desapareceu completamente, é mais fácil encarar essa pessoa de frente. De quase amigas, somos apenas colegas, suportando-nos enquanto tal. Perdoo, sim, porque se o não fizesse, esse sentimento me envenenaria cada dia. Mas nunca deixarei de sentir que fui traída.

2006/01/25

Dias de raiva

Não estou desaparecida. Estou viva, ainda, movo-me, ou melhor, arrasto-me para fora de casa todos os dias, respiro, muitas das vezes fundo para calar o que me apetece dizer. Também ainda me rio, algumas vezes, e sorrio sempre que há alguma coisa que me faz feliz. Mas não consigo escrever, ou pelo menos, ser racional no que escrevo, pois todas as injustiças que tenho presenciado, o ambiente de ditadura em que trabalho actualmente, sempre com a desculpa da crise, não deixam que seja moderada. Se escrevesse agora, teria que espetar facas, descobrir carecas, denunciar quase-crimes. E, também eu, com a desculpa da crise, tenho que me calar.
Aqui fica, portanto, a razão do meu silêncio. Melhores dias virão. Até já.

2006/01/05

Idade

"How old would you be if you didn't know how old you are?"
Satchel Paige

À falta de mais, hoje é dia de citações, e esta tem tudo que ver com alguns relacionamentos que tenho estabelecido ultimamente. Será que a idade é mesmo importante? Aqui há tempos, um colega meu de quem me tornei amiga disse que nunca pensou que uma pessoa da minha idade, 10 anos mais velha que ele, alinhasse em certas coisas como alinho. Novamente, as aparências, os preconceitos, os filtros que nos impõem desde que nascemos, são postos em causa. Ainda bem, que já é tempo.

Eu também

A agitação dos meus dias nesta primeira semana de 2006 tem levado a minha inspiração para outros caminhos. Por isso, aqui vai uma citação do mestre, que não posso deixar guardada na gaveta.

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

2005/12/31

Happy New Year

Aqui está ele, novinho em folha e pronto a usar. Não é nada de mais, apenas outro ano, outra oportunidade para escrevermos mais um pouco das nossas vidas. O conteúdo depende apenas de cada um e não de sortes, azares, astrologias, deuses maiores e menores. É nossa a mão que escreve, não outra qualquer. Assim, e porque não sabemos quantas folhas ainda nos restam, temos que aproveitar cada uma delas ao máximo. Por isso, vamos lá fazer o melhor que pudermos. Feliz Ano Novo a todos.

2005/12/27

Balanço

2005 já só dura pouco mais de 3 de dias e 2006 está à porta. Chegou, portanto, a altura de fazer um pequeno balanço do ano que decidi que devia ser de viragem. Aqui vai:

Prós:

· Resolvi acreditar que valho por mim e não pelo que aparento.
· Descobri que não tenho que ter medo de afirmar os meus gostos, as minhas tendências políticas, os meus defeitos e as minhas fraquezas, e que não sou obrigada a seguir qualquer rebanho.
· Comecei um projecto fantástico, que acredito que irá mudar a minha vida totalmente. Obrigada por seguires comigo neste caminho, MP.
· Redescobri a alegria de estar apaixonada, nem que seja só por um sonho, e o que esse estado é capaz de fazer por mim. Sorri muito, senti-me dona do mundo, e nada nem ninguém me podem tirar essa felicidade do coração. No fim, chorei, mas ganhei um amigo e a consciência de que esse estado é essencial para eu ser feliz.
· Em Julho, dei uma hipótese à felicidade e descobri que ela está mesmo só nas pequenas coisas. Obrigada, J.
· Descobri que os melhores amigos não têm que ser aqueles que estão connosco todos os dias, mas aqueles que nos têm no coração, mesmo vivendo do outro lado do oceano. Obrigada, P.
· Conheci um universo de coisas bonitas e inspiradoras nos blogs que visito regularmente.
· Conheci novos amigos e reencontrei alguns antigos.
· Perdi quase 10 kg, sem esforço e sem sacrifício, e continuo no bom caminho.
· Dediquei-me mais às minhas palavras, e estou a descobrir um novo rumo.
· Dediquei-me mais a mim e estou a descobrir que sou capaz de tudo.

Contras:

· Desiludi-me com pessoas que conheço há anos e que considerava amigas.
· Descobri que a ambição e a vaidade acabam com qualquer amizade.
· Descobri, infelizmente, que a hipocrisia ainda move mundos.
· Percebi, que cada vez menos, nos preocupamos com os outros sentem e sim com o que os outros poderão pensar de nós.
· Descobri que há cada vez menos capacidade de ver para além do que é imediato, porque não temos tempo e porque não estamos para isso.
· Descobri que há pessoas que pensam que existem graus de infelicidade, medidos por acontecimentos mais ou menos graves.
· Descobri, de acordo com as palavras de alguém, que só poderei contar comigo própria. Seja.

Contas feitas, e dado os volumes de prós e de contras, parece que afinal 2005 não foi mau de todo. Venha outro.

2005/12/22

Merry Christmas

Porque é dele que se trata no próximo dia 25, e não de presentes, pais natais, renas, trenós, chaminés e afins, aqui ficam os meus desejos de Feliz Natal e de muita paz a todos.

(imagem do Menino Jesus usada na Ilha da Madeira na época do Natal, em substituição do tradicional presépio)

2005/12/16

Só para mostrar o que queria dizer





Apesar de ao natural também não ser grande coisa, este senhor seria igualmente um susto se aparecesse assim num cartaz. Só para não me acusarem de ser "biased".

2005/12/15

Umas quantas para explicar a anterior

O primeiro comentário foi, vindo da Inês M., o mesmo de sempre: "Lá estás tu a arranjar coisas contra a esquerda", ou algo semelhante. Como sempre, as pessoas falam sem saber de quê, a ideia feita que têm de nós é a que as leva a formar a opinião. Mas isso fica para outra altura.

A razão do meu comentário prende-se, muito simplesmente, com uma questão de estética. Desde o primeiro dia em que dei de caras com este outdoor, a caminho do trabalho, que me ficou a apetecer dizer mal. Não do candidato, apesar de nunca ter gostado da criatura (ele há coisas que não se explicam, mas algo me diz que ele não é de fiar), mas da imagem em si.

Olhem lá bem para ele. O senhor que pretende ter a juventude necessária para ser o próximo Presidente da República durante 5 anos aparece-nos aqui como uma sombra. Reparem na boca, que o grafismo deforma a ponto de fazer lembrar um trejeito causado por uma trombose. Os olhos estão igualmente deformados, tortos, e não se consegue entender o que o olhar pretende transmitir.

A seguir vem a mensagem, moderninha, como convém. A brincadeira de copy com alusão ao moderno mp3. Será que o hino da campanha já está disponível neste formato? Ou irão distribuir aparelhinhos a quem chegar primeiro à sede da campanha? Será que os jovens de hoje só se interessam mesmo por isto, para que os responsáveis pela campanha tenham optado por acenar com tal objecto de desejo tal como se acena uma cenoura a um burro? Não tarda nada estão a dizer que Mário (i)pod. Até mais que três vezes.

É com este rosto, e com esta alusão ao mais recente formato musical, favorito da piratagem discográfica, que se pretendem conquistar os votos dos jovens de 18 anos num vetusto senhor de 81? Poupem-me! Ainda bem que tenho quase 40 e não vou na conversa.

(Desta vez, sou eu que estou a julgar pela aparência. Espero conseguir perdoar-me um dia.)

Só uma palavra





CREEPY!





(ou em bom português, assustador).

2005/12/14

Perdida


Deste-me o rumo que eu procurava. Deste-me o calor da tua pele, mataste-me a sede de corpo que o meu corpo tinha, levaste-me a acreditar que nada tem fim quando somos felizes. Vivemos aqueles dias, que pareceram eternos, saciando-nos de nós e saciando o desejo que nos assolava a alma. Esquecemos o mundo, confiámos que aquele vento que nos empurrava seria sempre uma brisa amena. E afinal...
Nunca entendi, e nunca entenderei o que se passou. Teremos esgotado a paixão? Terás tu esgotado o desejo, saciada a fome? Que te fiz eu? Que me fizeste? De onde veio o ciclone que agitou o leito do nosso mar? Rasgaram-se as velas, quebrou-se-me a alma. Partiu-se-me a vida ao meio, esqueci o antes de ti e agora só vivo o depois, sem ti e sem rumo. Só sei que nenhuma brisa te trará de volta, e que, perdida no meio deste mar branco, ninguém me encontrará. Nem eu me encontrarei.
Sem ti, meu astrolábio de desdita, minha caravela de esperança, mais perdida fico, mais perdida estou.

Eis a tua história, Hipatia, inspirada num desenho do Gaivina.

2005/11/29

Vá-se lá ser copy de uma freguesia destas.

Quando comecei a trabalhar em publicidade, há dezoito anos, como secretária, dei de caras com um mundo desconhecido que me fascinou. Cedo se tornou difícil manter-me sossegada no meu lugar no Dep. de Contacto, o lado sério e responsável da Agência, para vezes sem fim me irem buscar pelas orelhas ao Dep. Criativo, decididamente com muito mais graça. Tanto andei que fui considerada incapaz para as funções e despachada, em fim de carreira naquela empresa, para o dito Criativo (onde fiquei mais um ano e meio, contrariando as piores previsões).

O que eles foram fazer. E eu também, porque mal sabia o que estava para vir. Dali até chegar a copy, foi um processo que levou apenas cerca de 4 anos e duas outras agências. Comecei na altura do boom da publicidade, em que a agência (a terceira, neste caso) ditava as regras junto dos clientes e era um modelo a seguir pelas restantes do mercado. E escusado será dizer que, no auge económico da época, tudo era possível. Orçamentos milionários, ordenados fabulosos, campanhas mirabolantes. E tudo corria bem, porque havia dinheiro e as campanhas traziam retorno aos clientes.

O dinheiro implicava, igualmente, bons profissionais nas agências, escolhidos a dedo, e bons profissionais do lado do cliente. Tudo corria sobre rodas. Os briefings eram claros, concisos e directos ao assunto. Queremos vender X, da forma Y, com base na estratégia Z. E lá íamos nós à procura da melhor ideia para responder ao pedido. Com bases concretas para trabalharmos, que o trabalho era muito e não permitia perdas de tempo. O trabalho saía, era, em geral, aprovado com umas poucas alterações, finalizado e entregue.

Em tempos de crise como o actual, parece ter-se perdido, a par com o dinheiro, o respeito pelo trabalho da agência. O cliente quer, pode e manda, e fá-lo a qualquer hora do dia, sem se preocupar se há ou não outros trabalhos em curso de outros clientes. As agências, sob a constante ameaça de perderem mais um cliente, tudo fazem para o manter, o que resulta no caos actual.

O cliente sabe que ver vender X, mas também quer vender A e B ao mesmo tempo para poupar dinheiro, sendo que a forma de vender X entra em confronto directo com as formas de vender A e B, pelo que o esforço para encontrar uma ideia que consiga reunir todas elas é elevado ao cubo. E tudo isto sempre para ontem, porque só nos lembrámos agora de que temos que ter isto no ar para a semana.

Sempre de camisola vestida, porque afinal são os clientes que nos pagam ao fim do mês, lá fazemos das tripas coração e rins e fígado, rebentando com o estômago pelo caminho, e cumprimos o prazo. O trabalho vai ao cliente e volta, mas não como antigamente. “Afinal havia outra” é uma constante, com o briefing a mudar radicalmente, já para não falar do mudem lá a palavra porque esta não soa bem à senhora do dep. técnico que estava na reunião, ou o nome do produto porque não está parecido com o da concorrência, apesar de não existirem muito mais alternativas. Tudo isto com a agravante de o prazo ter sido reduzido de três dias para um.

O processo repete-se e desta vez volta, ainda em fase de maquete, para mudar a cor de fundo das peças todas, porque é vermelho e o cliente é do FCP e embirra, já agora ponham rosa, que não fica bem com o resto (mas também com os computadores é fácil e rápido mudar), e vejam lá não se esqueçam dos ponto e vírgula no fim dos bullets… um sem fim de alterações que têm que voltar ao cliente para serem de novo aprovadas.

Criativos, accounts e produtores são levados à exaustão, entre reuniões e pré-reuniões, e briefings, re-briefings e orçamentações, enquanto o omnipotente cliente (com algumas excepções) vai olhando para o dinheiro que gasta com a agência e pensando que, já que pago, eles têm que fazer o que eu quero. Como eu quero.

Vá-se lá ser copy de uma freguesia destas.

2005/11/21

Um estranho sentido de justiça

E então disse-me que não era justo eu cumprir a lei. Uma lei que eu não tinha exigido, sobre a qual não me tinha informado, que me conferia um direito diferente do direito dos outros. Simplesmente, não era justo.

Há já muito tempo que esta pessoa, com quem convivo há algum tempo e de quem já pensei ser amiga, me confronta com coisas assim. Chegou a dizer-me, em certa altura, que não era justo eu receber devolução de IRS apenas porque sabia preencher os impressos. Não era justo para quem não os sabia preencher.

Mas se fosse só ela, estávamos nós bem. Hoje em dia, a justiça é vista assim. Se tu tens, eu também tenho que ter, mesmo que não tenha direito. E se eu não tenho, tu também não podes ter. É por isso que se rouba a torto e a direito para comprar ténis, calças de marca e telemóveis última geração. É por isso que se risca o carro topo de gama do vizinho. É por isso que as pessoas se endividam para ir de férias para o mesmo sítio que o colega de trabalho, ou então para comprar um qualquer objecto que seja digno de inveja, com o qual não se pode andar à vontade porque foi muito caro. É por isso que se critica quem nos faz sombra por ser mais eficiente e popular. É por isso que apostamos na imagem e na simpatia como meio de subir na vida, dissimulando as nossas reais dificuldades.

A minha justiça não se obtém a qualquer custo. Faz-se por merecê-la, lutando, cumprindo e, fundamentalmente, sendo honesto. A minha justiça impede-me de lhe responder que não é justo eu ter conseguido o que tenho à minha própria custa, sem cunhas, sem ajudas, sem qualquer tipo de empurrão. Que não é justo eu chegar a casa e não ter ninguém para me receber. Que não é justo eu não poder contar com ninguém. Que não é justo faltar-me tanto do que me faz falta, e que nada tem a ver com dinheiro.

Que a vida não é justa, todos nós sabemos. Todos deveríamos poder ser infinitamente felizes, mas nunca conseguimos, porque enquanto olhamos para a vida dos outros, nos esquecemos de avaliar a nossa e tudo o que ela tem de bom.

Depois de escrever isto, passei por acaso pelo Charquinho e dei com A Posta Num Pecado Mortal, que, a meu ver, tem tudo a ver.

2005/11/18

Lazy Bitch I Am

You scored as Sloth.

Sloth

63%

Pride

50%

Lust

50%

Gluttony

38%

Greed

25%

Envy

19%

Wrath

13%

Seven deadly sins
created with QuizFarm.com
Ah pois é, o resultado do meu teste de pecados capitais foi mesmo a preguiça. Eu já desconfiava, mas preferia pensar que era "lust" que, se formos a ver, também não está nada mal na classificação. E afinal, quem é que quer ir para o céu?

2005/11/12

Fresquíssimas


Qual é a primeira reacção a um nome destes para um estabelecimento? Tirasse-se o talho e as ilustrações, o que se poderia pensar?

Pois, nem vale a pena dizer. À excepção da proprietária, que terá todo o orgulho do mundo no seu nome, todos associamos Bagina e Carnes Frescas a outro tipo de negócio. É a tal história da língua portuguesa.

Foto tirada pela P.Madeira em Portalegre, no dia mais quente de 2004, 45°C para onde quer que nos virássemos. Valeu-nos a frescura da imagem.

2005/11/05

Dear God - III

Às vezes, complicamos tanto que nos esquecemos das pequenas coisas simples que fazem parte do nosso dia a dia. Um agrafador, uma caneta, a água que corre da torneira, a electricidade que nos permite estar aqui... tomamos tudo como garantido, a não ser quando nos faltam. O grave é que o mesmo acontece com as pessoas que nos rodeiam – estão lá e pensamos que estarão para sempre. Não mostramos que gostamos delas, porque julgamos que já mostrámos isso mais que uma vez, não telefonamos porque temos mais que fazer, não nos interessamos porque pensamos que já as conhecemos. E desistimos delas quando não estão de pleno acordo connosco. Sem uma palavra.

Hoje, quando comentava, com alguém que conheço há muitos anos, a crescente indiferença pelos outros, responderam-me que me habituasse à ideia de que só poderei contar mesmo comigo. Enfim, seja. Resta-me o consolo de poder sempre contar com um agrafador que a qualquer altura, e sem dor, ressentimento ou discussão, pode ser substituído por um novo e melhor. E também com alguns amigos.

2005/11/03

Cruzes Canhoto

Tirei esta foto há cerca de um mês, ainda não se falava muito da gripe das aves. Entretanto, e como ainda não cedi às maravilhas (sem ironia) da fotografia digital, limitando-me a usar a minha querida reflex, o rolo foi ficando à espera de que um dia me lembrasse de o revelar. Entretanto, surgem os primeiros mortos e eu lembrei-me imediatamente das aves naquele rolo: patos, gansos, galinhas, galos… um sem fim de seres vivos cobertos de penas. Teriam gripe? Não teriam? Fosse a minha máquina uma digital e elas teriam sido logo apagadas, à semelhança daquele senhor que tentou devolver à loja o papagaio que vive lá em casa há alguns anos. Ou, quem sabe, de alguém que tenha posto o canário de quarentena na despensa, para evitar o contacto com quaisquer outras aves. Já para não falar de quem se torna agorafóbico por causa dos pombos nas praças.

Foi dito e explicado mais que uma vez que o contágio acontece quando há contacto com aves mortas e as suas secreções, e que não há contágio entre seres humanos, pelo que o cidadão comum, que não trabalha em aviários, não tem muito a temer. Mas não… o alarmismo típico dos portugueses deixa-os continuamente em pânico, sem que estes tentem informar-se sobre a verdade dos factos.

Por falar nisso, anda por aí a circular um e-mail de utilidade pública que alerta para os perigos da re-re-re-pasteurização do leite, já que o número impresso na base da embalagem indica o número de vezes que este já foi pasteurizado. Assim, e segundo o e-mail, de fonte seguríssima, “se uma embalagem tiver o número 1, significa que é a primeira vez que sai da fábrica e chega ao supermercado para a venda final, já se tiver o número 4, significa que ele já foi repasteurizado 4 vezes e depois retornou para o supermercado para a venda final e assim por diante...”.

Com tudo isto, já não se come carne de vaca por causa das vacas loucas, não se consomem aves por causa da gripe e não tarda nada, começa a sofrer-se de osteoporose por falta de leite, a não ser que contratem amas-de-leite de confiança para o seu fornecimento.

Quanto a mim, continuo a não dispensar o meu leite do dia, mas apenas porque sabe, e é, realmente melhor.

2005/11/02

Proximizade

Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.

Pois é, às vezes (infelizmente cada vez mais) esquecemo-nos dos outros, tão embevecidos que andamos pelo nosso próprio umbigo. Mas parece que ainda há quem se lembre.

Aqui já está a acontecer.

2005/11/01

Treat, for sure.

Perco-me no rosto que não tens e nos silêncios que me encantam. Anseio por uma palavra, uma só que te revele mais. Como explicar um fascínio que não se explica? Uma gota gelada a escorrer pelo peito, um fruto que se partilha num toque de lábios, um perfume que se adivinha por trás de um gesto. Espero, num sonho, pelos dois toques prometidos. Trick or treat? Tonight, you are the wizard of my fairy tale. Treat, for sure.

2005/10/30

Sumo de laranja

Em resposta a um desafio colocado em Voz Em Fuga, aqui vai o meu contributo:

Porque estás triste? Não te dei já o sumo de laranja que querias?

Deste, deste. Mas quando te pedi sumo de laranja, sabias que não era sumo que eu queria. Ou devias ter sabido.
Quando te pedi um sumo de laranja queria que me desses de novo o primeiro momento, aquele em que te falei de laranjas e te debruçaste então sobre mim, para me dizeres que eu não iria precisar delas porque te tinha a ti. Para sempre.
Eu devia ter percebido que tu não eras pessoa que entendesse meias palavras. Eras demasiado lógico, demasiado frio, nunca percebeste o que estava para além do que te dizia. E, no entanto, amava-te.
Agora, quando te pedi um sumo de laranja, o que eu queria era que voltasses a ser como no primeiro dia, e me fizesses esquecer o sumo porque tu estavas ali e nada mais era importante.
Estou triste, sim, porque tu não percebeste e eu percebi que tu já não és meu.

2005/10/27

Diz qualquer coisa que eu te sinta!

O dia de te dizer isto ainda não chegou, porque ainda não sei quem és, ou talvez saiba e tu não, ou antes pelo contrário. Podemos ter-nos desencontrado por qualquer motivo, ou encontrado sem saber ainda que éramos um nós. E embora eu não saiba quem tu és, quero dizer-te já o que sinto por ti:

Amo como o amor ama.
Não sei razão para amar-te mais que amar-te.
Que queres que diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...

(...)

Se te vejo, não sei quem sou: eu amo
Se me faltas, (...)

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci para ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu brincava a ter marido
Me faltava crescer e o não sentia
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Tens um segredo? Diz-mo, que eu sei tudo
De ti, quando mo digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se não o podes dizer, diz que me amas,
E eu sentirei sem querer o teu segredo.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

Este excerto de Fausto Fernando Fragmentos, adaptado de F. Pessoa, é dedicado à pessoa que eu vier a amar.

2005/10/26

Brainless

Li em TalvezTeEscreva a seguinte definição maquiavélica:

"Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis." [Maquiavel]

Já que não me arrogo pertencer à primeira categoria, e julgo não fazer parte da terceira, é lógico que me inclua na segunda. Ora, estou sem saber o que fazer, pois há quem julgue que eu devesse saber menos, ou então esconder que sei. Mas se lhes sou útil quando precisam, porquê exigir que eu seja inútil? Uma solução possível será, talvez, passar a fingir que não sei e perguntar a quem sabe. Como faço sempre que não sei. Aceitam-se sugestões, de quem entender melhor que eu. Há por aí algum cérebro excelentíssimo?

2005/10/21

Dear God - II



Às vezes, passamos uma vida inteira a sonhar com isto ou com aquilo, esperando que alguma entidade divina no-lo conceda, mas a verdade é que, como diz a minha mãe, quem quer faz, quem não quer manda. Só assim temos a certeza de que o que obtemos é o que queremos.

2005/10/17

O beijo

Era a primeira vez que se viam. Conheceram-se num chat e tinham começado a amar as palavras um do outro, sem que nunca se tivessem visto ou ouvido. Milhares de palavras passaram por aquela janela, um confessionário dos sentimentos mais profundos que viviam, dia a dia, partilhados noite após noite na solidão que cada um preservava com empenho.
Ela era transparente, revelava-se toda sem reticências em cada ponto, cada vírgula, cada expressão de cada vez maior entrega àquele companheiro das suas noites. Ele, por outro lado, escondia-se atrás de uma máscara de dor por ele criada, uma barreira que ele queria que fosse impossível de ultrapassar.
Ao longo do Verão, ela foi-se entregando àquele ser, talvez real, talvez não, que surgia do nada quase todas as noites, andando às voltas em torno de uma relação que umas vezes parecia possível, outras menos. E ele entregava-se também, para fugir logo no dia seguinte.
E agora, frente a frente, descobriam finalmente quem era a pessoa do outro lado, a imagem verdadeira daquele ser que tinham vindo a imaginar. Ela, igual ao que tinha descrito, talvez um pouco mais magra do que ele imaginava; ele, completamente diferente da visão que ela tinha criado daquele seu grande amor – mais baixo, parecendo mais novo que a idade que tinha.
Sem o escudo protector de um ecrã e um teclado, ficaram sem palavras, eles que as respiravam. E sentiram que ali, ao vivo, não conseguiriam manter viva aquela relação. Tinham quebrado o laço criado pela imaginação. Restava-lhes despedirem-se, porque a partir dali já não conseguiriam ser os mesmos, já não falariam num sonho mas sim numa realidade que não queriam ver.
Olhou-o nos olhos, uma última vez, e sem que ele pudesse fazer nada, beijou-o como tantas vezes tinha imaginado fazê-lo. Um primeiro e último beijo, para fechar o ciclo da sua redescoberta.
Pediu-lhe para esperar, tirou uma folha de papel da mala e escreveu qualquer coisa, que lhe entregou depois de dobrar. Ele abriu o recado e leu a mensagem, como sempre tinha lido as palavras dela. “Adeus, meu amor.”

2005/10/14

Arquivo Morto - Manel

O Manel foi uma paixão fugaz, tão fugaz, que foi como veio. E a forma como foi é a única razão para estar aqui. Aos 20 anos, o Manel decidiu escolher a morte como solução para o que quer que fosse que o atormentava. A notícia apanhou-me de chofre, já não o via há muito. Durante uns tempos, continuei a vê-lo ao virar da esquina, a esperar que aparecesse, possivelmente porque não conseguia aceitar a decisão dele.

Decidi, então, que acontecesse o que acontecesse, eu nunca cederia ao desejo de encontrar a paz num local desconhecido. Até porque, ao deixar tudo por resolver, não sei se conseguiria descansar.

Desististe tão cedo, Manel. Se um dia nos encontrarmos, nalgum lugar, havemos de ter uma conversa.

2005/10/11

Dear God - I

Recebi, da Cláudia, que recebeu do Nuno, que recebeu de... um e-mail com cartas de crianças a Deus, e acho que são de partilhar.



Quando somos crianças, e mesmo jovens, os sentimentos são mais sinceros, mais... como dizer, agudos, radicais... amamos o Rei Leão, o Aladino, o cantor X e a actriz Y com todas as nossas forças, ao mesmo tempo que odiamos também a professora de português e o colega da carteira da frente, que usa cábulas e dá graxa aos professores. À medida que crescemos, tornamo-nos cada vez mais tolerantes para com tudo. Pelo menos, é o que tem acontecido comigo. De qualquer modo, se reencarnar, também não quero ser aquela "Jennifer" que me fez a vida negra. Quero ser eu outra vez.

2005/10/08

Arquivo Morto - Carlos

Carlos. Voltar à Rua do Sacramento não podia deixar de me fazer lembrar dele. O Carlos, que provocou a segunda grande mudança na minha vida. Meia dúzia de palavras e a miúda de estilo indefinido, um pouco a atirar para o beto, passou a ser uma jovem moderninha que só vestia de preto e frequentava o Bairro Alto. Eu era caloira, ele estava a repetir o primeiro ano, e para mim, ser notada por alguém mais velho e tão popular, foi a melhor coisa que podia ter acontecido.
Seguiram-se dois anos, quase três, de tão grande cumplicidade, que toda a gente, incluindo professores, assumia que namorávamos. O que nunca aconteceu. No entanto, não deixámos de cair em tentação várias vezes para, no dia seguinte, fazermos de conta que nada se tinha passado. Junto dele, sentia-me importante, especial, diferente de todas as outras.
Eu acabei o curso no tempo previsto e o Carlos, mais uma vez, ficou a repetir o ano. Ainda nos vimos algumas vezes depois, mas acabámos irremediavelmente por nos afastar. Há alguns anos, num encontro de amigos da altura, vi-o novamente, o mesmo de sempre, mas já nada dizíamos um ao outro. No entanto, quando entrei hoje na Rua do Sacramento, vi-me nitidamente a entrar com ele, enquanto nos cruzávamos com o sorriso cúmplice de uma professora comum.

Regresso as Aulas

Hoje, voltei à escola. E não foi a uma escola qualquer, foi àquela onde fui mais feliz. Aquelas instalações estavam, supostamente, já fechadas, e as aulas iriam ter lugar num sítio mais bonito, mais acessível, com melhores condições. Mas como não há coincidências, acabei por ir parar ao sítio do costume, de onde saí há 18 anos com um diploma na mão, para uma última despedida.
Devido a uma série de contratempos, já estava atrasada, irritada, pronta a discutir e disparatar. Mas quando entrei aquela porta, a emoção tomou conta de mim e, eu que não sou nada dessas coisas, comecei a chorar enquanto subia as escadas. Ao contrário do primeiro dia de aulas, há muitos anos, em que tudo era novo e desconhecido, desta vez, aquele átrio tinha muitas histórias para recordar. O bar estava fechado, não pude ir ao jardim, mas ainda consegui espreitar para a sala onde tive a primeira aula, no segundo andar.
Afinal, o curso não começou, nem sei se irá começar alguma vez, mas, aparentemente, tudo se conjugou para eu ir uma última vez àquele sítio. Porque hoje foi, exactamente, o último dia em que ele funcionou como escola.
Adeus, Rua do Sacramento à Lapa, 16.

2005/10/07

Eu queria ser ilunga

Ilunga é uma palavra de uma língua falada na República Democrática do Congo e, aparentemente, a palavra de mais difícil tradução em todo o mundo. Descreve aquela pessoa que está disposta a perdoar qualquer abuso pela primeira vez, a tolerá-lo uma segunda, mas nunca uma terceira. Ora, eu queria ser assim, mas não consigo. Caio à primeira, à segunda desconfio, mas caio, à terceira volto a cair, à quarta já se sabe que acontece o mesmo e por aí fora, numa sucessão de quedas que não matam mas moem.
O pior de tudo é que eu sei perfeitamente por que é que isto acontece - é apenas porque eu nunca sei o motivo da queda. Ando para ali, vou tropeçando em mal-entendidos, até que enfio o pé numa desilusão e lá vou eu. O verdadeiro problema é que acabo sempre por continuar a não olhar bem para onde ando, de tão iludida que estou com alguma felicidade que possa sentir. E, depois de cair, levanto-me e esqueço-me de perguntar por que motivo me passaram essa rasteira.
Depois de tanta nódoa negra, eu já só queria ser ilunga.

A Vida ao Contrário

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para a frente. Nós deveríamos morrer primeiro, livrarmo-nos logo disso. A seguir viver num asilo, até ser corrido para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então, trabalhar 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar a reforma. Aí curtir tudo, beber bastante álcool, fazer festas e preparar-se para a faculdade. Passar para o colégio, ter várias namoradas, voltar a ser criança, não ter nenhuma responsabilidade, tornar-se um bebezinho de colo, voltar para o útero da mãe, passar os seus últimos nove meses de vida flutuando.... E terminar tudo com um óptimo orgasmo!!! Não seria perfeito?"
Charlie Chaplin

Eu já conhecia, mas recebi hoje por mail da Mipê e lembrei-me de partilhar. Seria bom, mesmo. Grande Chaplin.